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Café Amargo

ADOÇADO (OU NÂO) COM PEQUENAS NOTAS ...

Café Amargo

ADOÇADO (OU NÂO) COM PEQUENAS NOTAS ...

África: os dias despreocupados

 

 África tão longe e sempre tão perto. Longe... na distância. Guardada no passado. Perto... na evocação dos dias despreocupados daquele tempo em que o tempo parava para aceitar as correrias de bicicleta ou de patins, rua abaixo, os jogos, a leitura, as farras ao som do gira-discos do mano mais velho e para transigir, também, com as alegres brincadeiras que se inventavam e que preenchiam a infância e a adolescência.

 

mariam

 

África: o farnel no morro da Samba

 

 Revivo o tempo de férias escolares dos irmãos mais velhos. Manhã cedo, numa lufada, pelas barrocas que ficavam voltadas para a nossa casa, subíamos o morro da Samba. Farnel farto para todo o dia, a velha tenda de campanha às costas do mano responsável, o "Mocho". Já no cimo, armada a velha tenda, lá nos abancávamos à sombra dela e comíamos o farnel para, à hora do almoço, sob o olhar incrédulo da mãe, nos prantarmos de volta a casa... e almoçar!

                                                                                                                             mariam

África: o morro

 

 Lembro o morro que se avistava lá de casa. Aquele extenso morro vermelho que explorava de um lado ao outro! Quantas as ossadas humanas por lá encontrava!... Um mistério! Ouvia contar que eram de soldados do tempo da Guerra Mundial. E qual delas? Seriam? Abeiro-me daquela encosta íngreme, bem virada ao mar. Parece que o morro quer precipitar-se na estrada que segue junto à praia. Paro. Do alto do morro, olho aquela imensidão azul. Céu e mar que se tocam. Ao longe, entre a areia da praia e a linha do horizonte, vejo as canoas que descansam na pequena ilha dos Pescadores, perdida naquele azul-mar.

mariam

África: o vermelho das barrocas

 

De África, retenho o tom vermelho daquelas barrocas que eu e os meus irmãos, ao calor de um sol abrasador, calcorreávamos em liberdade para irmos tomar um banho ao mar, sob o olhar atento da mãe que nos vigiava discretamente lá de cima, na varanda de casa.

mariam

África: cheiros e cores

 

 O tempo não apaga as lembranças. Aromas intensos e cores vivas de África continuam presentes nas imagens que a memória retém. Sinto o cheiro do peixe no velho saco de mateba do velho pescador, o Miguel, tez escura, carapinha e barba brancas,  vestido com panos às riscas coloridas, pés descalços "pelas barrocas" de terra vermelha, subindo o morro que o ligava ao mar azul forte…

mariam

África: gratas recordações

 

 África oferece-me gratas recordações. Recordo aquele miradouro onde, ainda jovem, o Padre Alexandre, sempre de batina branca, se sentava a olhar o mar. Aparecia na sua Lambreta, chegava e distribuía “santinhos” pela miudagem que logo o rodeava. Depois retomávamos as nossas brincadeiras e jogos e ele, D. Alexandre do Nascimento, mais tarde, Cardeal e Arcebispo de Luanda (emérito), recolhia-se ao silêncio e à contemplação. 

mariam

África: o miradouro ao fim da rua

 

 Recordo aquele miradouro ao fundo da rua, virado ao mar, onde contemplava o pôr-do-sol. E a memória traça aquela linha imaginária onde os azuis do céu e do mar se tocavam e os matizes de vermelho e laranja, incandescentes, espalhavam toda a beleza do sol que se escondia para dar lugar ao silêncio da noite, quebrado, apenas, pelos sons ritmados de uma qualquer batucada vinda do mar, lá ao longe, na ilha dos Pescadores.

 

mariam

África: as imagens que se revivem

 

 O regresso a África nunca mais aconteceu. Ficaram as imagens dos tempos lá vividos e o gosto de os recordar. Lembro o cheiro da terra molhada quando caíam as primeiras chuvadas. Sempre fortes. O espetáculo da trovoada que se abatia sobre o mar e se desfrutava da varanda da casa sobranceira ao mar. E lembro aqueles relâmpagos que iluminavam a noite escura e imprimiam um forte risco de luz que dilacerava o céu negro e se espelhava no mar.

 

mariam

 

 

Longe de África

 

  Longe de África, a realidade passava a ser outra, bem diferente. Houve sonhos que não foram ser cumpridos. Eram sonhos de "ser e estar" de África. Inadequados ao novo cenário que se desenhava. Esses ficavam no passado... arrumados sem amargura, nem revolta. O cenário mudava, a ação prosseguia e era preciso criar ânimo e tempo para novos sonhos. A vida tinha de continuar longe da terra que me viu nascer.

 mariam

 

África e partir

 

Deixar África e partir, era uma questão de sobrevivência. E de liberdade. Era noite. No aeroporto, ouvia o barulho assustador do grande tiroteio. Os confrontos aconteciam por toda a cidade e tornavam-se frequentes. As tracejantes riscavam o céu escuro. Sentia-se o medo. Fazia parte daqueles dias e tinha de conviver com ele.

 

mariam